Ando há algum tempo para escrever este texto. Perdoem-me o título agressivo, a falta de educação, mas sinto-me no direito de o fazer. Vou emigrar. Tenho vinte e dois anos, uma licenciatura no curriculum e vou para Inglaterra fazer aquilo que de melhor sei fazer, ser Enfermeira. Era isso ou trabalhar em algum lar a 300km de casa a ganhar pouco mais do ordenado mínimo, ou num centro de saúde. Não foi isso que escolhi para início de carreira, quero um hospital, quero oportunidades de aprender mais porque no fundo ainda sei tão pouco. Então vou para Inglaterra, não porque não tenha cá emprego, mas porque aquilo que o país me oferece não me permite atingir a excelência que eu reconheço na minha profissão. Assim vou para Inglaterra, não espero que seja tudo bom, mas pelo menos espero mostrar o meu valor, o valor da Enfermagem. E, sinceramente, senti que tinha valor durante as dezenas de chamadas que a agência de recrutamento fez para mim, sempre a esclarecer as tantas dúvidas que tive; senti valor ao ser entrevistada presencialmente por duas Enfermeiras inglesas que se deslocaram a Lisboa para conhecer as vinte e quatro pessoas que, tal como eu, só querem mostrar o seu valor. Vou para Inglaterra fixada na minha vida profissional, no meu crescimento enquanto Enfermeira enquanto tudo o resto me grita para ficar em Portugal. Dizem-me que Inglaterra é logo ali, mas e quando eu precisar de um abraço do meu namorado? E quando eu precisar de um mimo da minha mãe, de um conselho da minha irmã acerca do que vestir? E os serões em casa do meu pai? Será que em Inglaterra vai existir um bar onde passar as noites de sexta? Mesmo que exista, vou brindar com quem? Onde vão estar os meus amigos? É aquela dicotomia entre o cérebro e o coração, entre a razão e a emoção. Sinto-me tão feliz por ir trabalhar na minha área, no serviço que escolhi e tão triste por tudo aquilo que deixo cá. A maior parte das pessoas diz-me que estou a tomar a melhor decisão, mas eu já não tenho certezas de nada. Espero que aquilo que vou atingir, aquilo que vou ganhar compense aquilo que eventualmente perderei, os abraços que não vou ter, os aniversários a que vou faltar, os brindes que não vou fazer em todas as sextas à noite. Espero continuar a amar esta arte que é a Enfermagem, da mesma forma e que continue a ter forças para deixar tanta coisa para trás para seguir o meu sonho, ser Enfermeira.
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