"Ensinam-nos a forma correcta de puncionar um doente. A maneira
como devemos segurar o cateter, o ângulo correcto e o sítio onde devemos
picar... ligeiramente afastado da veia para depois a picarmos, sem
afundar muito a agulha para não perfurarmos a veia de uma ponta à outra.
Depois a forma como ligamos o soro, já previamente expurgado.
Ensinam-nos a algaliar com o movimento
correcto. Não podemos esquecer de encher o balão com água destilada em
vez de soro. Ensinam-nos a fazer pensos... gases gordas, hidrofilmes.
Ensinam-nos a colocar sondas nasogástricas. A distinguir o som quando a
sonda está no estômago e a quantidade de sonda que é necessário
introduzir para que esta faça o percurso do nariz ao estômago.
Nunca
ninguém me ensinou como reagimos quando nos morre um doente, de um dia
para o outro, sem que nada faça prever este desfecho. E eu sei que sou
nova, que sou só aluna do primeiro ano e que se não sei lidar com a
morte não devia ter escolhido esta profissão. Mas há coisas que não se
ensinam e esta é uma delas. Não foi um simples doente que morreu. Foi um
senhor com quem eu passei dias a fio, que se despediu de nós a chorar
quando teve alta. Foi um senhor que me ensinou muito, que não se
importava que eu fosse estagiária e que as coisas não corressem tão bem.
Foi o “meu” senhor, o meu primeiro doente e que me respondia com um
sorriso quando eu lhe perguntava onde podia comprar rede de pesca. Foi
um senhor que deixou uma esposa fantástica e que ainda mantinha
esperança quando eu a encontrei na sala de espera das urgências.
Obrigada por tudo Sr. O. Sei que contribui um pouquinho para a sua
felicidade nestes últimos dias e quero que saiba que não fui só eu que
fiz alguma coisa por si, o senhor também fez muito fez muito por mim e
gostava de lhe agradecer por isso. Obrigada."
Escrevi este texto há quatro anos. Lidar com a morte continua a ser a minha maior dificuldade. Mas isso, já deixou de me preocupar. Lido mal com a morte, pior, lido mal com o sofrimento. Apego-me demasiado aos doentes. O que é bom para eles e mau para mim. Já deixei de querer saber. Sofro muito, choro em casa e acreditem que faço o meu processo de luto pelos doentes. Sou enfermeira, não sou uma máquina e mau será se algum dia olhar para uma pessoa que morreu e só ver ali um corpo. Que palavra feia. Morremos e ficamos reduzidos a um corpo? Como se de um objeto se tratasse? Recuso-me a aceitar isso, recuso-me a aceitar quando duas enfermeiras prestam os cuidados à pessoa depois de morta enquanto falam da telenovela que passou na televisão na noite anterior. Bolas, é uma pessoa, como é que isto não mexe um bocadinho com toda a gente? Não é só um coração que deixou de bater. Não sou religiosa, talvez por isso o meu respeito pela morte seja muito grande. Porque para mim a morte significa, inevitavelmente, o fim. E isso é de uma tristeza imensa. Ficarmos reduzidos a isso. Todas as vivências, todas as experiências, todas as vezes que choramos de tristeza ou de alegria, acabam ali, naquela fração de segundos e não sobra mais nada. Vou continuar a chorar a morte dos meus doentes, a tentar ao máximo dignificá-los. Mesmo que sofra mais. Não importa.
Escrevi este texto há quatro anos. Lidar com a morte continua a ser a minha maior dificuldade. Mas isso, já deixou de me preocupar. Lido mal com a morte, pior, lido mal com o sofrimento. Apego-me demasiado aos doentes. O que é bom para eles e mau para mim. Já deixei de querer saber. Sofro muito, choro em casa e acreditem que faço o meu processo de luto pelos doentes. Sou enfermeira, não sou uma máquina e mau será se algum dia olhar para uma pessoa que morreu e só ver ali um corpo. Que palavra feia. Morremos e ficamos reduzidos a um corpo? Como se de um objeto se tratasse? Recuso-me a aceitar isso, recuso-me a aceitar quando duas enfermeiras prestam os cuidados à pessoa depois de morta enquanto falam da telenovela que passou na televisão na noite anterior. Bolas, é uma pessoa, como é que isto não mexe um bocadinho com toda a gente? Não é só um coração que deixou de bater. Não sou religiosa, talvez por isso o meu respeito pela morte seja muito grande. Porque para mim a morte significa, inevitavelmente, o fim. E isso é de uma tristeza imensa. Ficarmos reduzidos a isso. Todas as vivências, todas as experiências, todas as vezes que choramos de tristeza ou de alegria, acabam ali, naquela fração de segundos e não sobra mais nada. Vou continuar a chorar a morte dos meus doentes, a tentar ao máximo dignificá-los. Mesmo que sofra mais. Não importa.