sábado, 31 de janeiro de 2015

A morte

"Ensinam-nos a forma correcta de puncionar um doente. A maneira como devemos segurar o cateter, o ângulo correcto e o sítio onde devemos picar... ligeiramente afastado da veia para depois a picarmos, sem afundar muito a agulha para não perfurarmos a veia de uma ponta à outra. Depois a forma como ligamos o soro, já previamente expurgado. Ensinam-nos a algaliar com o movimento correcto. Não podemos esquecer de encher o balão com água destilada em vez de soro. Ensinam-nos a fazer pensos... gases gordas, hidrofilmes. Ensinam-nos a colocar sondas nasogástricas. A distinguir o som quando a sonda está no estômago e a quantidade de sonda que é necessário introduzir para que esta faça o percurso do nariz ao estômago.
Nunca ninguém me ensinou como reagimos quando nos morre um doente, de um dia para o outro, sem que nada faça prever este desfecho. E eu sei que sou nova, que sou só aluna do primeiro ano e que se não sei lidar com a morte não devia ter escolhido esta profissão. Mas há coisas que não se ensinam e esta é uma delas. Não foi um simples doente que morreu. Foi um senhor com quem eu passei dias a fio, que se despediu de nós a chorar quando teve alta. Foi um senhor que me ensinou muito, que não se importava que eu fosse estagiária e que as coisas não corressem tão bem. Foi o “meu” senhor, o meu primeiro doente e que me respondia com um sorriso quando eu lhe perguntava onde podia comprar rede de pesca. Foi um senhor que deixou uma esposa fantástica e que ainda mantinha esperança quando eu a encontrei na sala de espera das urgências. Obrigada por tudo Sr. O. Sei que contribui um pouquinho para a sua felicidade nestes últimos dias e quero que saiba que não fui só eu que fiz alguma coisa por si, o senhor também fez muito fez muito por mim e gostava de lhe agradecer por isso. Obrigada."

Escrevi este texto há quatro anos. Lidar com a morte continua a ser a minha maior dificuldade. Mas isso, já deixou de me preocupar. Lido mal com a morte, pior, lido mal com o sofrimento. Apego-me demasiado aos doentes. O que é bom para eles e mau para mim. Já deixei de querer saber. Sofro muito, choro em casa e acreditem que faço o meu processo de luto pelos doentes. Sou enfermeira, não sou uma máquina e mau será se algum dia olhar para uma pessoa que morreu e só ver ali um corpo. Que palavra feia. Morremos e ficamos reduzidos a um corpo? Como se de um objeto se tratasse? Recuso-me a aceitar isso, recuso-me a aceitar quando duas enfermeiras prestam os cuidados à pessoa depois de morta enquanto falam da telenovela que passou na televisão na noite anterior. Bolas, é uma pessoa, como é que isto não mexe um bocadinho com toda a gente? Não é só um coração que deixou de bater. Não sou religiosa, talvez por isso o meu respeito pela morte seja muito grande. Porque para mim a morte significa, inevitavelmente, o fim. E isso é de uma tristeza imensa. Ficarmos reduzidos a isso. Todas as vivências, todas as experiências, todas as vezes que choramos de tristeza ou de alegria, acabam ali, naquela fração de segundos e não sobra mais nada. Vou continuar a chorar a morte dos meus doentes, a tentar ao máximo dignificá-los. Mesmo que sofra mais. Não importa.

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