domingo, 4 de janeiro de 2015

O amor

Nunca entendi muito bem o amor. Aquela paixão assoladora que os filmes românticos tanto insistem em transmitir. Sempre achei exagero toda aquela entrega, toda aquela cumplicidade. Tive dois namorados, um durante toda a minha adolescência e o outro já na fase adulta. Achei que os amava mas sempre senti que devia haver algo mais. Afinal nenhum dos meus namoros se assemelhava àqueles que via nos filmes. Se calhar sou exigente de mais, pensava. Depois veio o divórcio dos meus pais, depois de vinte e seis anos de casamento e eu acreditei cada vez menos no amor. Mas compreendi-os perfeitamente porque em nenhuma das minhas relações me imaginei a ficar com essas pessoas "até que a morte nos separe". E depois apareceu alguém. Um amigo de há vários anos que foi entrando na minha sem que eu me apercebesse. Fazia-me rir e eu gostava disso. Tão igual a mim que por vezes até incomodava. Começaram os cafés tomados depois de jantar, as longas conversas, as idas ao cinema. Deixei de pensar nas coisas, a minha vinda para Inglaterra estava mais que pensada e só queria passar uns bons momentos com alguém que me fizesse bem. E deixámos-nos ir, éramos só amigos que passavam muito tempo juntos. O tempo foi passando e já não conseguíamos passar um dia sem estarmos juntos. Começámos a construir o nosso filme romântico, a verdade é essa. Nunca conheci ninguém assim e agora entendo o porquê de o amor nunca ter feito sentido para mim. Porque nunca tinha sentido, nunca tinha amado, nunca soube a sensação de a nossa felicidade depender de outra pessoa num sentido bom. Agora consigo imaginar-nos juntos "até que a morte nos separe". Não há dias maus, só dias menos bons. Nunca nos deitámos chateados um com o outro, nunca deixámos nada por dizer, nunca nos importámos com as opiniões dos outros. Temos uma relação adulta mas não nos privamos daquela espontaneidade das crianças, se o entendermos. Temos guerras de almofadas, ataques de cócegas e eu ando nas cavalitas dele a toda a hora. E depois deitamos-nos na cama e falamos dos filhos que vamos ter, de quando formos viver juntos, olhamos-nos nos olhos e não precisamos de dizer mais nada, ficamos em silêncio porque na realidade não existem palavras para descrever aquilo que nos corre nas veias. Quando vim para Inglaterra achei, sinceramente, que tudo isto ia chegar ao fim. Toda a gente o criticou por não vir comigo, menos eu. Chorei todos os dias durante o primeiro mês, achei que não ia aguentar, odiava estar a sofrer mas odiava ainda mais vê-lo a sofrer, ouvi-lo a chorar a milhares de quilómetros de distância de mim. Quisemos pôr um ponto final, esquecer a existência um do outros, aos poucos. Não conseguimos porque não há nada que apague uma coisa tão forte como aquilo que nós vivemos. Fui a Portugal, ele abraçou-me e choramos os dois, porque nenhum amor verdadeiro deve estar tão longe. Voltei para Inglaterra com o coração apertado. E aí ele ligou-me e disse que vinha para cá, que a dor de não me ter não compensava tudo aquilo que ele tinha em Portugal. Daqui a um mês vamos viver juntos, começar a nossa verdadeira vida a dois. Nunca pensei que isso me acontecesse com vinte e dois anos mas estou mais feliz que nunca. A nossa relação foi a coisa mais improvável que me aconteceu em toda a vida e a melhor ao mesmo tempo. Agora entendo o amor, finalmente.

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