Os cabrões passam-me ao lado. Confiantes, convencidos, com o rei na barriga e aquele discurso sedutor que serve para toda e qualquer rapariga que por eles passe. Normalmente (existem exceções), não primam muito pela inteligência, no entanto acham-se superiores a toda a gente. Entretidos pelo seu ego, sobra-lhes pouca concentração para as pessoas à sua volta. Um dia, num passado que me parece mais longínquo do que realmente é, apaixonei-me por um cabrão. O típico cabrão. Eu tinha acabado com uma relação de cinco anos, com o único rapaz com quem tinha estado. Ele era seis anos mais velho, rapaz sabido e com um historial de pseudo-relações amorosas. Conheci-o numa discoteca, numa noite académica em que, entre bebidas, acabamos por falar com toda a gente. Ele era o predador, eu a sua presa. Ficou com o meu número e no dia seguinte jantamos juntos. Ao contrário da maior parte dos cabrões não me tentou levar para a cama nesse dia. Aliás, durante algum tempo convenceu-me que não era um verdadeiro cabrão. Tomamos café todas as noites durante um par de semanas e eu acredito que o fiz esquecer do seu verdadeiro propósito - levar-me para a cama. Digo isto porque durante esses tempos ele esqueceu-se de todo aquele egocentrismo que o caraterizava, tínhamos conversas interessantes e pasmem-se, chegamos a discutir obras literárias. Apaixonei-me por um cabrão e soube disso de imediato. Os cafés deram lugar a jantares na minha casa, a beijos apaixonados e a noites quentes no meu quarto, com ele a sair sorrateiro de manhã para ir para as aulas. Ao fim de semana, quando voltávamos a casa, eu ia ter com ele porque ele me pedia e porque eu achava que era diferente, que se podia mudar a personalidade de um cabrão. As conversas diárias foram dando lugar a mensagens curtas que acabavam, inevitavelmente, na cama. Um dia fartei-me. Ganhei coragem e deixei que o meu cérebro falasse mais alto que o meu coração. Disse-lhe que ou sim ou sopas, que não o queria mais nem na minha vida, nem na minha cama. Fiquei orgulhosa de mim até ao fim de semana seguinte quando ele, mais uma vez me pediu para ir ter com ele. Jurei que era a última vez e fui. Como todos os cabrões, apesar de não primarem pela inteligência, têm as suas manhas e os seus truques. Nessa noite fui sair com ele, os seus primos e os seus melhores amigos. Nunca os tinha conhecido antes. Fui apresentada como namorada, comportei-me como namorada e ele seguiu-me o exemplo. Enganou-me, mais uma vez, porque não se consegue sobrepor o cérebro ao coração por muito tempo. Durou pouco tempo e voltamos ao mesmo. Chorei mais do que alguma vez me lembro ter chorado por alguém. O meu coração deixou-o ir aos poucos enquanto ele ia arranjando outras camas para passar as noites. Deixei de lhe falar. Ele veio atrás de mim, mas desta vez a presa tinha ganho forças suficientes para resistir ao seu predador. Arranquei-o da minha vida com a mesma intensidade com que o deixei entrar. Muito tempo passou até nos voltarmos a falar. Eu confiante, ele arrependido. Pediu desculpa, disse que me usou e que andava iludido com a sua vida de cabrão. Disse que o seu maior arrependimento tinha sido perder-me, e eu acredito nele. Pediu-me uma oportunidade. Ri-me. Os cabrões não mudam nunca.
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